domingo

#PrimeiroAssedio


Um dos movimentos interessantes do mundo virtual é quando as vozes se unem pra clamar mudanças. Lendo as postagens #primeiroassedio, especialmente a de uma amiga, percebi que era hora de dar minha contribuição para esta questão e ao mesmo tempo tirar um pouco dessa pressão no peito, o lugar do silêncio a que todos somos empurrados para viver. Não, não precisar ser assim, falar deve ser sempre uma opção.  

Eu tinha cerca de 10 anos de idade. Fui apenas brincar com meu vizinho. De repente, num intervalo da brincadeira seu pai me chama pra conversar a sós.  Fui sem entender exatamente o que estava acontecendo. De repente ele baixa o zíper e me manda segurar seu pau. Fiquei com medo e uma sensação muito ruim. Ele: “é grande, né?! Chupa!”. Eu comecei a falar que queria ir embora e um pequeno pânico e medo me tomaram, mas não foram suficientes para me deixar quieto. Sabia que sua esposa estava no andar de baixo e qualquer grito de socorro poderia despertar a atenção dela, e também da minha família. Ele me deixou sair tentando me convencer de que nada havia acontecido. Sua esposa viu meu desespero ao sair, e insistiu para que eu contasse o que havia ocorrido. Falei. E ela me pedia insistentemente para nunca falar nada a ninguém.

Nessa época, mesmo se quisesse ter contado aos meus pais, desabafado para minha irmã, ou qualquer amigo, ficava em silêncio pela possibilidade de ser vítima de homofobia também. A opção foi engolir a sensação e chorar quieto pelos cantos da casa, inventando qualquer desculpa para o choro.

Depois, já adulto, recebi um abraço, que naquela época não pude ter. A sensação de ter sido abusado se repetiu num assalto que desmaiei e acordei na beira-mar em Copacabana com as calças parcialmente abaixadas. Fui ao meu infectologista, e aparentemente nada havia acontecido, mas seguimos com profilaxia de sífilis. Todos os exames que seguiram essa situação não apontaram nada. Não houve sangramento, e muito provavelmente não aconteceu o abuso, mas a sensação foi muito ruim.  Como se eu revivesse a situação de anos atrás, seguida de outras muitas violências. Tive um colo para chorar, que foi muito importante para mim naquele momento – e continua sendo por muitas outras razões.

Hoje busco o motivo de ser tão fechado para amores e possibilidades. A cicatriz que ficou foi um bloqueio, uma espécie de proteção, que por vezes me confina e afasta das pessoas. Há muita vida lá fora, e a porta começa a se abrir.


5 comentários:

Cláudia Valéria Sendra disse...

Meu amigo e filhote querido, a vida tem dessas, mas não é só isso, como você sabe. Abre todas as portas, escancara todos os espaços, olha pro mundo de peito aberto. Porque você merece. Você é muito especial. E esse colo aqui tá sempre disponível pra você, quando surgirem obstáculos pra alegria que você tem direito. Um beijo de amor.

Francisco disse...

Infelizmente são esses abusos que traumatizam tantos jovens em silêncio

:(

Latinha disse...

Isso é uma coisa terrível, infelizmente ainda muito presente na vida de muitos... :(

Grande abraço.

Joana Teixeira disse...

Sem duvida que sem uma atitude o problema não parará de crescer. é importante lugar contra o preconceito que dificulta bastante o tratamento da Aids. Esses dias também li um outro texto sobre o flagelo da Sida e como abordar o assunto na sala de aula aqui:http://demonstre.com/aids-como-abordar-o-tema-em-sala-de.../
Abraços e até ao próximo post!

Ro E Nada Mais disse...

Ser abusado é realmente horrível. E esta é uma luta que deve ser encarada em nossa sociedade que oculta muitas coisas ainda para manter uma aparência falsa. Como vítima também pude sentir a vivacidade dos medos que rondam este seu texto. Este ainda é um assunto tabu para mim, só consegui conta-lo para duas ou três pessoas durante toda a minha vida. Acredito que já superei este trauma, mas confesso que por muito tempo foi difícil. Te admiro por se abrir desta forma e com esta simplicidade trazer mais depoimentos sobre este tipo de crime.