sexta-feira

Sufoco dá vida


Hoje amanheci com a tristeza recorrente em minha vida. É um aperto forte no peito que parece que vai me destruir, junto com uma vontade enorme de chorar. Nesses momentos tenho vontade de desistir de tudo: trabalho, amigos, estudos, planos, projetos, e da vida como um todo.
A sensação é como se não houvesse mais motivos para continuar seguindo. Os obstáculos parecem maiores do que realmente são.  Não tenho vontade de falar com ninguém, nem de ver ninguém.
Obviamente, como trabalho todos os dias, crio estratégias para tentar lidar com isso. Normalmente essa tristeza vem pela manhã e não dura mais do que duas ou três horas. Raramente continua a tarde. As vezes ela é tão intensa que tenho que ir ao banheiro do trabalho chorar para voltar renovado.
Temos desconfiança de que isso seja efeito do Efavirenz, o que meu médico apontou como grande possibilidade. O fato de saber que é efeito colateral não ameniza sua potência destrutiva. Pelo contrário. Às vezes intensifica o ódio de ter que viver eternamente dependendo de drogas que absorvem minhas forças e minha energia. As vezes nem tenho vontade de malhar em função da tristeza. Existe a possibilidade de trocar de medicação, mas eu já fiz isso antes mesmo de começar o tratamento antiretroviral. Pulei a medicação indicada pelo médico e acordamos um outro esquema com menor possibilidade de colateral e com baixo potencial para ocasionar lipodistrofia. Mas essa nova combinação tem o Efavirenz.
O que me resta é lidar quase que diariamente com essa tristeza encarando ela como parte da vida. Em muitos momentos como esse escrevi postagens tristes, mandei torpedos tristes, chorei ao telefone com alguém e assustei amigos pelo facebook. Hoje busco guardar ela só pra mim. Não posso estender pra todos esse colateral.  Buscarei guardar pra mim e para esse blog apenas, na tentativa de amenizar o potencial destrutivo dessa medicação - o mal necessário.
Como disse meu médico:
- Se você tiver algum comportamento ou pensamento intenso de suicídio a gente troca a medicação.
Trocar a medicação significa trocar de colaterais. Enquanto for suportável para mim e para os que convivem comigo, vou seguindo pela/para a vida.
Deixo um abraço para todas as pessoas que necessitam tomar medicação controlada por qualquer motivo que seja.



9 comentários:

O Rei do Drama disse...

amigo, eu não tenho HIV mas posso entender como se sente. Acho que todas as pessoas passam por uma fase assim. Eu mesmo, vira e mexe passo por essa apatia, essa falta de esperança e a vontade de desistir (tão fácil desistir, né? Embora requeira coragem). Mas eu me levanto, aliás, eu me forço a levantar. Eu choro, mas só quando a garganta fica apertada o bastante pra isso. E também gosto de chorar sozinho, embora saiba que um abraço possa amenizar essa angústia no peito, mas nunca gostei de dividir minhas dores com as pessoas.
Force a si mesmo a levantar, nem que seja passo a passo, saia de casa, ocupe a cabeça, mude o foco do sentimento. Não cura, mas resolve. amanhã é outro dia.
bjos e fica bem
Dramma

E ヅ disse...

Já pensou em escrever um livro nesses momentos? Inventar uma história fictícia, pra poder soltar tudo que tem aí dentro dessa tristeza sem dar nomes reais aos bois? As melhores músicas e poesias nascem da dor-de-cotovelo, dizem, então a tristeza (ainda que induzida por medicação) pode vir a criar algo belo.

Ou viajei?

FOXX disse...

acho que o Dramma falou uma merda lá em cima. ele diz que entende, mas compara o que você passa com uma fase. significa que ele não te entende coisa nenhuma. que ele pressupõe que isso vai passar um dia, e não vai, que vc precisa se acostumar com isso pq será uma constante em sua vida de agora em diante. só posso te apoiar agora, meu querido amigo, estar presente se você precisar... como eu gostaria de ser apoiado tb.
conte comigo
pra mandar msgs e chorar no telefone
estarei sempre disponível.

O Rei do Drama disse...

Foxx, você acha que eu falei uma merda pq disse que é uma fase? Ninguém é feliz e infeliz o tempo todo, nem mesmo você. Todos temos dias bons, dias não tão bons e dias ruins. As vezes muito ruins. Se você não percebeu, ou não quis perceber, foi ralmente a mensagem que eu quis passar: amanhã é outro dia, sempre. É com as dores da gente que aprendemos a caminhar. Ficar se lamentando o tempo todo não leva a nada.

Anônimo disse...

Pablo disse: Imagino o quanto você está sofrendo e, acredite, passo horas inteiras imaginando formas de amenizar essa dor. O exercício de empatia que tenho praticado talvez não esteja sendo suficientemente bom. Se ao menos nós nos permitíssemos sermos menos racionais, e depositássemos as nossas esperanças em algo místico ou espiritual. Porém isso não nos atende. O que nos resta é ter força e fé em nós mesmos e nas pessoas que nos rodeiam. Eu tenho muita fé em você, talvez mais do que tenho em mim mesmo. Agora eu sei que é possível manter uma caminhada, ainda que difícil, diante de situação inesperadas e controversas. Você tem sido um exemplo diário. Não falo isso para adular o seu ego, pois você é inteligente o suficiente para discernir entre um elogio vazio e uma admiração profunda.
Os autos e baixos que você tem passado certamente são mais intensos do que os que acometem o homem médio, pois a medicação intensifica a sensação. Sofro em saber que você está passando por isso. Não é nada fácil. Com meus poucos e, em sua maioria, irreais problemas eu já penso em desistir. Imagine você diante de algo tão real. Quando precisar chorar, chore; quando precisar ligar, ligue; quando precisar ignorar, ignore; quando precisar falar, fale. Porém, quando a fé estiver abalada se lembre que existem diversas pessoas que largariam o que fosse preciso para estar ao seu lado, apoiando. Sua mãe, seu pai, sua irmã e seus amigos só não estão mais próximos em respeito a sua necessidade de autonomia e distanciamento. Imploro que duvide do amor que sentimos por você, pois ele é mais forte que qualquer vírus ou medicação. Se atenha a esse amor, pois ele é seu. Sua arma e seu escudo. Ele é real e infindo.
Te amo!

Anônimo disse...

Pablo se corrige: O que eu queria dizer é: "Imploro que não duvide do amor..." Hehehe! Você já tem problemas demais para ficar duvidando. A pessoa cheia de problemas e um louco ainda manda duvidar. kkkkkk! Tento ser mais sério, mas meu riso é frouxo e você sabe disso. Só pra confirmar: TE AMO! Beijão!

Cara Comum disse...

Olha, eu não sei como é ter essa sensação induzida por medicação, mas sinto algo próximo disso que você descreveu há anos... Eu tento me virar como posso e o que eu posso fazer é te sugerir umas estratégias que funcionam comigo. Eu as chamo de "terapia do prazer", partindo do pressuposto de que, se não resolve a situação, ao menos ameniza. A idéia é fazer atividades que produzam serotonina (o neurotransmissor do prazer) pra diminuir a intensidade desses episódios. Chocolate (já ouviu falar de um tal de "lajotinha"?), sol matinal e exercícios físicos diários (evite faltar na musculação um dia que seja!) são indicados. Comigo também funciona escutar música e ler/escrever. Além disso, Skiner me inspira a adotar a estratégia de pequenas recompensas diárias ou semanais para toda vez que eu consigo vencer o desânimo. É o jeito que eu encontrei pra lidar com isso e espero que você também se encontre. Se precisar que o mineiro aqui faça "contrabando" das guloseimas da terrinha via sedex ou a necessidade for só de um ouvido amigo, pode contar comigo porque eu também te amo. ^^
Beijos!
Fica em paz!

Alguém Por Aí disse...

Obrigado a todos pelos comentários! Tenho evitado pensar muito na temática deste blog e por isso não tenho respondido a cada um como de costume. Espero que entendam. Continuem comentando!! Beijos

AD disse...

Lembro agora de Nurse Jackie e sua obsessão por alopáticos e drogas afins. O roteiro faz até a gente rir da situação, mas depender de remédios controlados por vício ou por doença é uma merda mesmo. Vide minha vó no hospital, a terapia do injetar é sem fim e o paciente não tem escolha ou as escolhas são falsas.