quarta-feira

Um banho

Naquele dia não tinha forças para escrever. Mal podia levantar do chão do banheiro. Não, não era efeito da medicação, talvez da maconha. Estava há dias sem chorar. Não por opção. Simplesmente a tristeza estava agarrada na garganta e se acumulava aos poucos como uma espinha de peixe que nada tira..
Como uma música que ia aumentando o ritmo um desespero passava pelo meu peito e subia. Eu vomitava minha tristeza pelos olhos. 
Me olhei no espelho. Via o que todos tentam me fazer esquecer. Acho que ela é maior tortura que alguém pode passar. Imaginá-la dói muito. Vê-la dói muito mais.  Já se imaginou perdendo seu rosto?
Prontamente entrei no banho. A água quente do chuveiro se encontrava com minhas lágrimas também quentes. Juntas desciam.  Num impulso quase que puxado pelo chão ajoelhado me pus. Espremia a tristeza cada hora mais forte, agora não só pelos olhos, mas por todo meu corpo que se expressava.
Os pensamentos que compunham esse cenário eram aliados da culpa. Tantas vezes me masturbei nessa posição, o sexo agora vinha para estuprar. Doeu pensar em homens nus. As lágrimas aumentaram, meu corpo se contornava, numa espécie de exorcismo sem fim, mental e físico.
Saí do banho, me enxuguei e estava pronto, mas não sei exatamente por quanto tempo. Peguei minhas coisas e fui pro trabalho.






16 comentários:

FOXX disse...

uau!
seu texto mais forte até agora
sem sombra de duvida!

adorei te conhecer viu?

Da Lapa disse...

Uau...
Que texto foi esse? Concordo com o FOXX.
A Clarice deve estar se revirando.

Cara Comum disse...

Bom, o Gato disse que eu tenho sensibilidade pra perceber as pessoas... Eu acho que, na verdade, vc é que é um cara que consegue fazer a gente viver o seu sentimento através das suas palavras. O mérito é todo seu!!

Texto forte é pouco!! Eu sinto que, quando vc escreve coisas assim, é como se vc arrancasse parte desse sofrimento daí de dentro de vc e nos mostrasse a ferida viva.

Dói sim, meu amigo. A gente consegue perceber. Pode chorar, se o choro quiser sair. Pode gritar, esbravejar e crescer pra cima do mundo, pode ficar quietinho encolhido num canto escondido.

Só não esqueça duas coisas. A primeira coisa é sobre o poder do nosso pensamento em fixar imagens e nos definir. Lembre-se que é um poder fantástico! Cuidado com o foco disso aí por muito tempo voltado para a mesma afirmação!!

A outra coisa é que, acima de tudo, vc tem pessoas que estão ao teu lado (virtualmente ou não) prontas pra te ajudar. Lembre-se sempre disso!! Uma conversa, uma prece, uma escrita desabafo, cantar uma música que traga identificação são formas de tentar colocar isso pra fora e obter ajuda.

E vejo vc fazendo esse movimento de forma corajosa. Continue firme e confiante que a fortaleza interior é uma construção pessoal de grande mérito e de grande valia!

Saindo do tom grave e solene do comentário, queria te dizer que adoro essa música que embala seu post. E que adoro Los Hermanos (tomara que ninguém leia isso...). Vejo bom gosto por aqui, oras!!

E ela revela muito sobre o inconsciente, afinal é uma música que fala sobre o renascimento, o deixar de ser um homem velho e ser um moço (homem novo)... Bom sinal saber que lá no fundo vc não crê que está tudo perdido, não acha???

Vou parar de fazer o exercício ilegal da profissão de psicólogo (que provavelmente deve estar cheio de incorreções) e só deixar meu carinho mesmo.

Um grande abraço e muita paz pra vc, meu amigo!!

Alguém Por Aí disse...

Primeiramente quero lhe agradecer pelo comentário. Na verdade esse texto retratou o meu maior medo (e creio que de todo soropositivo – a lipodistrofia) e que não posso falar com meu médico nem mesmo com meus amigos reais, pois insistem em falar que é loucura minha, e que meu rosto continua o mesmo. Espero muito que sim, mas as vezes percebo de forma distinta e mergulho nesse desespero.

Sempre fui um cara atraente, não que eu limite a minha pessoa num egocentrismo de "beleza exterior", mas o fato de perceber possibilidade de mudanças na minha face(por mais que sejam imperceptiveis aos olhos alheios)me transtorna. É como se eu perdesse minha identidade, e quem eu sou. Não falo aqui apenas de estereótipo, pois não me limitaria a isso, mas meu rosto também é parte importante de mim.

Mas como o próprio título falou... foi só um banho.
Nesse espaço mostro mais minhas tristezas, medos e outras questões que a convivência com o HIV me impõe, mas não me limito a esse sofrimento no dia-a-dia. Felizmente preciso de muito mais pra viver. Eu agradeço muito sua preocupação. Confesso que o foco se volta pra isso quase diariamente, mas por poucos minutos. Logo outras partes de mim assumem meu controle. Um grande abraço, muito obrigado pela paciência de me ler e por sempre tentar construir em cima de minhas desconstruções internas. Muita paz pra gente!

Gato Van de Kamp disse...

Eu confesso que as vezes fico meio sem palavras aki, pk posts como esse são apenas pra serem contemplados... É dor e nada mais.. Somente dor... Não deve ser consolado, conformado, afagado... Deve ser apenas respeitado como a única expressão possível diante de alguém que qdo escreveu foi apenas angustia e nada mais...

Cara Comum disse...

Alguém por aí, o conteúdo do seu texto - a lipodistrofia - eu acho que já tinha captado. Inclusive eu já tinha percebido também que seu blog é um espaço de "exorcismo" e que, por isso, não corresponde ao que vc sente.

Só dei o pitaco, sem querer ser arrogante ou impor, nem nada. Sabe aquela coisa do poder da imagem mental que eu falei? Pois é. Como seu blog também é uma criação mental, um registro do que vc sente, eu só alertei para o perigo dele ficar muito carregado, sabe?

Sei lá se vc lê aquilo depois de um tempo. Chegar lá e ver tanta imagem forte assim deve ser barra.

Claro que eu também não estou te colocando a obrigação de fazer posts "leves e felizes" e tenho certeza de que vc não entendeu isso.

Mas enfim, eu também estou certo de que vc sabe medir o equilíbrio entre desabafar e gerar imagens negativas com maestria.

No fim, a intenção foi só dizer um "estamos aqui", mas sem o pouco envolvimento que essas palavras quando repetidas e repetidas parecem ter.

Grande abraço!! E paz pra gente!

Pablo disse...

Adorei! A coisa da dor já foi muito comentada, então eu passo. O texto todo muito lindo, mas o final foi sublime. Imaginei a cena de um filme, obviamente Meryl Streep fazendo o seu papel. Ela entra no banheiro sem dizer uma palavra, olha-se no espelho, séria. Sente que alguma coisa mudou. A música vai entrando lentamente (poderia ser até essa do Los Hermanos, mas eu preferiria algo mais clássico e condizente com o momento, nada de letras psicodélicas).
Ela continua olhando séria para o espelho. Percebemos que lágrimas vão se formado e de repente o choro vai saindo. Sentimos a dor jorrar pelos olhos dela, assim como você descreveu. Ela vai até o boxe e chora, tentando conter o som para que ninguém na casa ouça. As lágrimas se misturam com a água do banho e escorrem pelo ralo (foco no ralo). Corta a cena e ela volta ao espelho, um pouco mais forte.
Ela está se enxugando. Demonstra que a dor ainda está lá, mas tem que ser contida. Ajeita-se e repõe o sofrimento no lugar onde ela o tem depositado todo esse tempo. Vai até a porta, põe os óculos escuros caríssimos que ela comprou em uma de suas viagens à Europa e sai linda e elegante como sempre.
Nesse momento eu, que já não teria mais lágrimas de tanto chorar com a cena, dou um sorriso e vejo quanta força existe naquela personagem. Olho para a minha própria vida e percebo claramente que há no ser humano uma força maior que qualquer coisa. Não sei descrever bem o que seria, mas saberia que aquela personagem carrega essa força. Envergonho-me de me angustiar por algumas coisas e peço desculpas, talvez a Deus. Sai do cinema e compro um pacote de ursinhos coloridos e gelatinosos. Não porque vai mudar alguma coisa, mas por gostar muito da sensação deles em minha boca. Só isso!

Pablro disse...

Obs: Esse blog seu é pura reflexão. Profundidade total! Você tem o dom de fazer os comentários serem maiores que a postagem. É tanta informação em tão poucos parágrafos, que precisamos escrever.

Paulo Braccini - Bratz disse...

dê um tempo querido ... até com as piores coisas da vida nós adaptamos e a dor é absorvida ... vc vai ver ,,,

S.A.M disse...

O Gato disse tanta coisa aqui que eu sinceramente me calo.

Não vou comentar nada 'allá' porque sou novo no seu blog. Seja bem vindo.

^^

Passarei aqui depois conhecendo mais sobre sua história. Beijao!

Ro Fers disse...

Complicado esse seu relato, porém quando estamos tristes, angustiados, desamparados, nada melhor do que escrever, desabafar nem que seja consigo próprio, pois de alguma forma, alivia nossa dor, acaba nos tranquilizando momentaneamente...

Jamais se sinta culpado pelas circunstâncias, não se cobre pelos fatos..
Forte abraço!

Fred disse...

Ai, gente... vcs tão muito intensos essa semana... vou levar minha falta de profundidade ali pro barzinho da esquina e te espero por lá depois pra gente "dar uns pegas"... hehehe!

Alguém Por Aí disse...

Prezados amigos blogayros ou não. Obrigado pelos comentários!

Cara Comum - acho que você está coberto de razão. Acho que tenho inclusive que tomar muita cautela. Esses assuntos que publico aqui são profundos e me tocam de forma muito forte. Acho que um limite é sempre válido, né?!

Pablo - Eu morri de rir com seu comentário. Não podia ser diferente, né?! Consegui imaginar a cena claramente na minha cabeça. kaukauakaukauakauk Confesso que no momento em que isso ocorreu a música não era do Los Hermanos... foi uma que traduziria perfeitamente a cena que você descreveu, mas por motivos... resolvi não publicá-la aqui.

Bratz - To quase me adaptando com o sofrimento. Mas vou dar um tempo disso.

Sam - Seja muito bem vindo!! Adorei seu blog!

Ro - Tem sido um exercício quase que diário retirar essa culpa. Mas é foda! Ou melhor... sei lá. Foda só traz mais culpa. rsrsrsrs Bjs

Fred - me carrega!!

Alguém Por Aí disse...

Gato, muito obrigado pela forma tão linda de ver esse texto. Um abraço

Aclim disse...

Eu acredito que vc escreve o que sente. E as vezes focar a dor e o que poderá ter que enfrentar é normal. Mas esta dor esta te fazendo criar texto de primeira linha.
Continue a escrever,e sem sofrimento não há nascimento.

Abraço

Lobo disse...

Mais um que fica sem palavras. Também, acho que nada que a gente diga pode aliviar essas sensações. Então, eu apenas fico aqui e observo. Esperando por dias melhores pra você

Um beijo!