domingo

Um Amigo


Hoje ele veio aqui, grande amigo e vizinho, que já confidenciei vários prazeres da carne. Acho que temos muita coisa em comum, especialmente pelo nosso jeito - um tanto aberto a novas relações - de ser (só a novas relações, por favor, sem ambigüidades).
Pediu para acessar a internet e prontamente emprestei o netbook. Estava dando a minha sentença (ou seria carta de alforria?).
Acontece é que ao acessar a internet ele descobriu o “Ninguém por aí”:
Ele: - Ummm, ta com e-mail de pegação, né?!
Eu: - Não, antes fosse de pegação.
Por um momento pensei em encerrar por aí nossa conversa, mas além dele ser um grande amigo, e por saber lidar bem com essa situação, especialmente por já ter se envolvido em relação sorodiscordante e ter a mente aberta quanto a isso, resolvi abrir o jogo.
Sua reação não me surpreendeu. Obviamente com um olhar triste, ele me deu apoio e conversou sobre suas experiências com o tema. Ele será a pessoa que vai me auxiliar nos momentos difíceis como a hora em que eu tiver que esconder a medicação da minha mãe quando vier me ver, ou algum outro amigo.
Amplio hoje o meu leque de amigos com a ciência de que tenho o vírus. Sinto-me mais leve, como se pudesse retirar um pouco das minhas costas um peso que carrego. Mais uma pessoa em que não preciso explicar minhas mudanças de humor. Um vizinho e amigo, que assim como posso pegar um macarrão, vai me entender em qualquer situação que eu venha a passar.
Lembro-me que na semana da descoberta ele foi uma espécie de “base espiritual”. Orou comigo, sabendo que eu tava mal, mas em todo momento respeitando meu silêncio e minha dor.
Acho que foi mais um passo em prol de minha aceitação. Aceitação? Será que tenho que aceitar algo que está em mim? Acho que a vida não me deu essa escolha. Ou que sobra agora é o que vou fazer com isso? HIV, o que vou fazer com você? Acho que vou deixar isso por contar dos antiretrovirais, pra não te dar o opção de responder a pergunta: “o que você vai fazer comigo?”
  


8 comentários:

Três Egos disse...

Amigos... é sempre bom tê-los por perto. O que mais acho legal de você é que não guarda tudo isso para si, isso seria péssimo para qualquer um acho.

Abraço!

Anônimo disse...

Pablo disse: Você contou? Já não era sem tempo. Eu sabia que cedo ou tarde você acabaria contando, assim como tenho certeza que vai contar para mais algumas pessoas. Não é da sua natureza se tolher ao conversar com amigos. Se forem amigos, você fala tudo, até as derrotas. Isso fica tão claro, que pessoas como Três Egos, que só te conhece por textos, já percebeu. Hehehehe! Tenho certeza que vai ser mais uma pilar na estrutura de sua vida. Abração!

Alguém Por Aí disse...

Pablo, acho que não tenho mais amigos pra contar. Se tivesse certamente faria. rs

blog da Paraguassu disse...

Querido,
Você sempre terá amigos. Em toda nossa vida, precisamos deles. Não se sinta culpado de nada. Você disse que eu mencionei seu medo em minha postagem. Isto não é verdade. Eu apenas recorri ao assunto em pauta, porque é o momento de todos conscientizarem-se
do absurdo da discriminação. É, antes de mais nada, um alerta e um apelo àqueles que, ainda rudes e de espírito atrasado, consideram as pessoas por sua aparência e não, pelo que realmente são.
Tranquilize sua alma e viva o seu tratamento. Isso é o mais importante no momento.
Fica com Deus e um grande beijo.
Maria Paraguassu.

Cara Comum disse...

Que bom que vc, aos poucos, vai tirando o peso do silêncio imposto por si mesmo, sem é claro, se violentar numa abertura excessiva que te expõe mais do que vc gostaria/suportaria. E que bom que as reações às suas revelações estão sendo boas!!

Bora seguir remando, então!!

Grande abraço!!

Aclim disse...

Sabe que o sofrimento é importante para quem sofre. Conhecemos o tamanho da nossa dor, da decepção.
Precisamos entender que não somos os únicos a sofrer e que por mais estranho que possa parecer as belas palavras são apenas, belas palavras.

Eu sei que dói ouvir isso, mas é a verdade.
Sabe o que é ficar com a lingua dormente de tanto sofrimento?

Espero que nunca saiba e sabemos nós que dinheiro nestas hs não tem o menor significado.

Minha alegria é conversar na Net com estranhos que chamamos de amigos, eles não vão olhar atravessado na rua e se olhar não vamos ver mesmo, são estranhos amigos.

Eu sei de que forma ficou com pena na parte do choro.

Abraço

Lobo disse...

Acho que sim, é um processo de aceitação, tipo quando estamos saindo do armário. Com o tempo vamos nos acostumando com a nova realidade, e o que era um peso vai deixando de ser...

Um beijo!

Alguém Por Aí disse...

Olá Paraguassu, obrigado pela força. O preconceito é meu maior medo por isso escrevi isso no seu blog.

Cara Comum, quando a exposição é uma opção é legal, mas nem sempre escolhemos e somos "obrigados" a nos expor. Obrigado pela força de sempre.

Aclim, as vezes tenho a sensação que não conheço minha dor. É um terreno novo, um campo minado e as vezes "piso na bomba" e tenho que recomeçar. Mas de qualquer forma o sofrimento é o caminho pra algum lugar. Acho que eu não deveria ter utilizado a palavra pena, me desculpe. Um abraço

Lobo, obrigado por sua opinião sobre aceitação. Espero que seja por aí mesmo. Bjo