terça-feira

Preconceito

Hoje fui em Dra. Leblon e a consulta foi bem melhor do que eu pensava. Partiu dela o interesse em querer repetir o exame da taxa de CD4 pois certamente “há algo de podre no reino da Dinamarca”.  Conversamos muito. Dra. Leblon tem muita paciência e ela tem o poder de me deixar mais calmo. Levei uma pesquisa de uma infectologista da UFSC e esclareci algumas dúvidas com ela. Ela participará de um evento no exterior voltado pra essa área. Fiquei feliz em saber disso.
O mais interessante é que comecei a refletir sobre algumas questões enquanto era atendido tanto no consultório quanto no laboratório. Pensei sobre o preconceito. Fui muito bem acolhido pelo pessoal do laboratório. Às vezes é estranha essa sensação, mas sempre espero ser discriminado de alguma forma. No laboratório, por exemplo, quando entreguei o pedido do exame o rapaz que me atendeu leu e fez o procedimento normal com um sorriso e uma atenção especial. Mas pela minha cabeça outras questões passaram. Esse menino era um gatinho e creio que também gay. Olhei pra ele e desejei. Mas existe algo, talvez coisa da minha cabeça, talvez não, que nos impede ou mesmo que me impede de olhá-lo. É como se o fato dele saber que tenho o vírus me impedisse de desejá-lo. Sei que é preconceito meu, talvez ele até esteja num relacionamento sorodiscordante, ou talvez ele também tenha. Mas criei uma espécie de cápsula protetora anti-preconceito que acho que me faz mal e me impede de me relacionar ou melhor, desejar pessoas que sabem de minha condição. É como se fosse certo a impossibilidade desses rapazes não se relacionarem comigo. Realmente não consigo conceber a idéia de ser vítima de preconceito e tenho muito medo desse dia chegar. Acho que não suportaria ou não controlaria minha agressividade.


Lembro-me que já fui vítima de homofobia algumas vezes. A vez que considero talvez a mais marcante foi na praia de Ipanema no réveillon. Digamos que eu estava num relacionamento, temporário mas abençoado, e estava de mãos dadas sentado na areia. Bem comportado. De repente sinto algo respingando em mim. Um cara que estava há alguns metros de nós estava jogando latas de cerveja meio cheia e gritava “aqui não é lugar de viado”.  O cara que estava comigo tem pavio muito curto e queria voar pra cima do cara. Se eu não o segurasse provavelmente iríamos parar na delegacia. Lembro que quase não consegui segurá-lo e também fiquei com um ódio enorme e vontade de matar aquele filha da puta. Mas consegui controlar.
 Não costumo reagir bem ao preconceito, embora no exemplo acima citado tenha conseguido. Tenho medo das pessoas saberem da minha condição. Sei que meus amigos são confiáveis mas as vezes tenho pesadelo com a possibilidade disso vazar. Essa noite mesmo tive um pesadelo em que Pablo contava para seu namorado sobre minha condição. Acho que no momento esse é meu maior medo.
Dra. Leblon falou que não devemos viver escondidos nem encapsulados. Ela refletiu acerca do passado comparando com a realidade hoje. Ela disse que hoje tudo está muito melhor e que ninguém mais é demitido em função disso. Falou ainda que as famílias aceitam muito mais. Concordo com ela em algum momento, mas nem tudo são flores. Imagino...  eu, que nunca tive preconceito com pessoas soropositivas estou tendo preconceito comigo mesmo imagine as outras pessoas. Bem, disso tudo eu só tenho uma certeza: não quero que ninguém mais saiba.


3 comentários:

Anônimo disse...

Como entrarei com frequencia em seu blog e acompanharei sua trajetoria, resolvi criar um nick pra q sempre estejamos juntos nesses pensamentos e reflexoes acerca de convivermos com o HIV..
assim, meu nick sera "MUTANTE" (como nos x-man,kkkk), tenho 28 anos..descubri a 2..
Sobre o preconceito, escolhi o nick por justamente ser uma forma de expressar cm passei a me sentir de certa forma, conHIVendo de forma silenciosa e sob constante medo de ser descoberto pela sociedade cruel em seus julgamentos e preconceitos.
Mutante, pq passamos sim a ser vistos (POR ALGUNS,claro!)cm portadores da morte. É importante para nós mesmos nos preservarmos pq nesses 2 anos de descobertas dessa mutação, ja li, e ate conversei cm pessoas q foram vitimas de PRECONCEITO.
E garanto a vc e a qq outro que essas vitimas carregam um TRAUMA q as acompanhara pra sempre.
Um caso, uma MULHER q conheci enkto pegava medicação a propria familia (irma, mae)estavam separando talheres, copos. pra vc ver o absurdo. Noutro caso uma bee, q por ter vazado q ele é soro+, e do proprio meio gay o discriminar com termos tais> chegou a carimbada, ou ainda esse tem a "tia".. tornou se alguem triste e sem sair de casa.
Desculpa te contar tais coisas.. estou apenas dividindo cm vc o poder malefico q o preconceito tem.
E por mais q nossos medicos, terapeutas e qq profissional nos diga o contrario, somente nós MUTANTES é q sabemos e sentimos na pele isso.
Portanto, so dividi o meu caso cm 2 gdes amigos q estiveram ao meu lado e a mais ninguem. Sejamos fortes, mais sejamos mais fortes ainda pra superar e vencer algo mais poderoso ate que o virus, chamado> PRECONCEITO!

Ninguém por aí disse...

Mutante, é um prazer imenso saber que você vai acompanhar esse blog e estar comigo nessa trajetória. Obrigado pelo comentário e por compartilhar essas histórias. Certamente esse é meu maior medo nesse momento. Não suportaria conviver com o preconceito.

Amigo disse...

Olha, de preconceito eu entendo. Nessa vida só me faltava ser mulher e soropositivo, pois o resto eu já sofri. A única coisa que posso dizer é que se um dia isso acontecer, você vai conseguir lidar. Quanto a Pablo, não se preocupe, pois tenho certeza que ele não contaria nada ao namorado ou a qualquer outra pessoa. Isso só diz respeito a você, não há porque contar. Você é que deve decidir quanto a quem vai ou não saber, não cabe a ninguém mais propor ou impor opções.